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FIDCs ganham espaço no varejo brasileiro com bancos mais seletivos e empresas pressionadas por dívidas

23/09/2026 - Fonte: ADVFN


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O aumento do endividamento corporativo e a maior seletividade dos bancos estão mudando a forma como empresas do varejo brasileiro buscam financiamento. Nesse cenário, os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) ganharam espaço como alternativa para antecipar recursos e reforçar a liquidez das companhias.

Um levantamento com 27 empresas listadas na B3 identificou cerca de R$ 6 bilhões em operações relacionadas a FIDCs. O volume pode chegar a R$ 8,4 bilhões quando são consideradas exposições que não aparecem de forma clara nos balanços. A expansão ocorre em um momento de maior pressão sobre o custo da dívida, consumo mais fraco e inadimplência das famílias.

Na prática, os FIDCs permitem transformar recebíveis futuros, como parcelas de vendas e carnês, em recursos disponíveis imediatamente. Para varejistas que encontram linhas bancárias menores, mais caras ou condicionadas a garantias adicionais, a antecipação desses recebíveis passou a representar uma fonte alternativa de financiamento.

Entre os casos de maior exposição está a Casas Bahia (BOV). Em recuperação judicial, a companhia possui aproximadamente R$ 3,95 bilhões relacionados a 12 fundos. Algumas operações chegaram a oferecer remuneração de CDI mais 30% ao ano aos investidores, taxa associada ao nível de risco atribuído aos ativos.

Na Lojas Quero-Quero (BOV), as cotas seniores do FIDC Verdecard somam aproximadamente R$ 1,36 bilhão. Os números mostram como a securitização de recebíveis passou a ocupar espaço relevante na estrutura financeira de companhias do varejo.

O crescimento dos FIDCs, porém, não significa necessariamente uma redução do custo de financiamento. Um executivo financeiro de uma varejista listada afirmou que sua empresa analisou o modelo, mas encontrou custos próximos de CDI mais 3,8% a 4% ao ano, sem vantagem suficiente sobre outras formas de antecipação de recebíveis.

A expansão desses fundos acompanha uma transformação mais ampla no mercado de crédito corporativo brasileiro. Dados da Anbima mostram que o patrimônio líquido dos FIDCs passou de R$ 639,79 bilhões em maio de 2025 para R$ 791,42 bilhões em julho de 2026. No primeiro semestre deste ano, as emissões alcançaram o recorde de R$ 53,1 bilhões, segundo a Moody’s. O avanço envolve diferentes modalidades de crédito e não está restrito ao setor de varejo.

A securitização ganhou participação enquanto o mercado de capitais passou a dividir com os bancos uma parcela maior do financiamento das empresas. Carolina Yaginuma, diretora sênior de Finanças Estruturadas da Fitch, afirma que, há uma década, para cada R$ 1 emprestado pelos bancos às empresas havia aproximadamente R$ 0,20 captado no mercado de capitais e menos de R$ 0,10 em securitização. Atualmente, essas relações superam R$ 1 e se aproximam de R$ 0,50, respectivamente.

O acesso aos recursos, entretanto, continua condicionado à qualidade de crédito de cada companhia. Empresas com balanços mais sólidos ainda conseguem captar em condições competitivas, enquanto companhias altamente alavancadas enfrentam taxas maiores, prazos menores e exigências adicionais de garantias. A Moody’s observa que linhas de prazo mais longo estão particularmente restritas, com algumas novas operações limitadas a até dois anos.

Os indicadores de crédito reforçam essa diferenciação. A Moody’s contabilizou 13 rebaixamentos de rating e apenas três elevações entre empresas não financeiras no primeiro semestre. A Fitch também identificou pressão no varejo, que ficou entre os setores com maior número de rebaixamentos, embora as agências ressaltem que a situação varia significativamente entre as companhias.

Outro sinal do aperto financeiro aparece no destino dos recursos captados. Segundo Leonardo Albuquerque, analista sênior da Moody’s, entre 70% e 80% das emissões recentes foram direcionadas à gestão de passivos. Em vez de financiar expansão, novas lojas ou aquisições, os recursos são usados principalmente para substituir dívidas existentes, alongar vencimentos e administrar o caixa.

A pressão financeira pode surgir mesmo quando as vendas e os resultados operacionais permanecem relativamente estáveis. Renato Donatti, diretor sênior da Fitch, aponta que o problema de determinadas companhias está concentrado no fluxo de caixa, especialmente no aumento das despesas com juros. Quanto maior a parcela do caixa destinada ao serviço da dívida, menor a disponibilidade para estoques, investimentos e expansão.

A janela de captações de 2024 e 2025 ajudou parte das empresas a enfrentar esse cenário. Segundo a Fitch, o mercado de capitais movimentou perto de R$ 750 bilhões por ano no período, contra aproximadamente R$ 300 bilhões anuais anteriormente, permitindo alongar vencimentos quando os spreads estavam menores e os prazos, mais longos.

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