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FIDCs ganham espaço como alternativa de financiamento para empresas

05/10/2026 - Fonte: ANFAC


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Em um cenário de crédito mais seletivo, empresas com geração recorrente de recebíveis passaram a olhar para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs, não apenas como uma alternativa para antecipar valores, mas como parte de uma estratégia mais ampla de financiamento. A lógica é transformar recebíveis que seriam pagos no futuro em liquidez no presente. Uma empresa que vende a prazo, por exemplo, pode ceder ao fundo direitos creditórios originados de suas vendas e receber antecipadamente os recursos, mediante umfator de compra. A diferença, para companhias com volume e recorrência suficientes, está na possibilidade de estruturar essa operação de maneira permanente, em vez de recorrer ao crédito apenas quando surge uma necessidade pontual de caixa.

Para empresas tributadas pelo lucro real, a análise pode ganhar outra dimensão. Nesse regime, a forma como receitas, custos e despesas são reconhecidos interfere na formação da base tributável, respeitadas as regras fiscais aplicáveis. Por isso, comparar um FIDC com uma linha bancária exige considerar não apenas a taxa nominal, mas também os custos de estruturação e manutenção, os efeitos tributários efetivamente aplicáveis, os prazos, a previsibilidade da operação e a possibilidade de diversificar as fontes de capital.

Isso não significa, porém, que um FIDC deva ser criado com o objetivo principal de gerar economia tributária, eventuais benefícios fiscais dependem da estrutura da operação e de seu enquadramento nas normas contábeis, fiscais e regulatórias. A análise precisa considerar a substância econômica da operação, os recebíveis que serão cedidos e as condições em que essa cessão será realizada.

Carteira passa a ser um ativo estratégico

De acordo com Luiz Lemos Leite, presidente da Anfac, a estruturação de um FIDC também pode provocar uma mudança na maneira como a empresa administra sua carteira de recebíveis. Para que os créditos possam ser adquiridos regularmente pelo fundo, torna-se necessário conhecer com maior precisão a composição da carteira, a concentração por cliente, os históricos de pagamento e inadimplência, a documentação dos créditos e a existência de eventuais disputas comerciais ou riscos de diluição. “Essas informações não são apenas exigências operacionais, elas ajudam a determinar a percepção de risco da carteira e podem influenciar o custo do capital. Nesse sentido, a estruturação de um FIDC pode funcionar também como instrumento de disciplina financeira e de aprimoramento da gestão dos recebíveis”, explica Lemos Leite.

O avanço do instrumento ocorre em um mercado no qual o acesso ao crédito bancário se tornou mais seletivo para determinadas empresas. Dados citados em levantamento do InvestNews mostram que 27 companhias de varejo listadas na B3 possuem aproximadamente R$ 6 bilhões em operações relacionadas a FIDCs, podendo o volume chegar a R$ 8,4 bilhões quando consideradas exposições que não aparecem de forma clara nos balanços. O movimento evidencia como os fundos passaram a participar de estruturas de financiamento de empresas que enfrentam diferentes condições de acesso ao crédito.

No entanto, a utilização dos FIDCs não significa necessariamente crédito mais barato. Em empresas com maior risco ou em situações de estresse financeiro, o custo da captação pode ser elevado. A própria reportagem citada mostra que há companhias para as quais a antecipação de recebíveis por outras modalidades ainda apresenta condições mais vantajosas.

Por isso, a escolha entre uma estrutura de FIDC e outras fontes de financiamento precisa considerar o perfil da empresa, a qualidade e o volume dos recebíveis, a necessidade de capital, o prazo da operação e o custo total da estrutura.

Uma mudança na arquitetura do crédito

O crescimento dos FIDCs também está relacionado a uma transformação mais ampla do mercado de capitais brasileiro. Segundo dados citados no material, o patrimônio líquido dos fundos passou de R$ 639,79 bilhões em maio de 2025 para R$ 791,42 bilhões em julho de 2026. No primeiro semestre de 2026, as emissões de FIDCs teriam alcançado R$ 53,1 bilhões, recorde para o período, embora parte relevante desse crescimento tenha vindo de fundos financeiros, especialmente aqueles ligados ao crédito consignado. Esse movimento ocorre paralelamente a uma maior seletividade de bancos e investidores. Empresas com melhor qualidade de crédito continuam encontrando alternativas de captação, enquanto companhias mais alavancadas enfrentam, em geral, negociações mais demoradas, prazos menores, taxas mais elevadas e maior exigência de garantias.

Nesse ambiente, os FIDCs podem ocupar diferentes posições. Para uma empresa com carteira pequena ou necessidade ocasional de antecipação, os custos e a complexidade de manter uma estrutura própria podem não compensar. Já companhias com faturamento relevante, carteira pulverizada e geração recorrente de recebíveis podem encontrar maior justificativa econômica para avaliar uma estrutura dedicada, especialmente quando a previsibilidade da operação e a diversificação das fontes de capital são relevantes. Ainda segundo Lemos Leite, o ponto central, portanto, não está simplesmente em substituir o banco por um FIDC, a questão é avaliar qual estrutura oferece melhor combinação entre custo, prazo, liquidez, risco, governança e capacidade de financiamento para o ciclo operacional da empresa.

“À medida que os recebíveis ganham importância como fonte de operação, os FIDCs deixam de ser apenas instrumentos de antecipação e passam a integrar a arquitetura financeira de determinadas companhias. O avanço desse mercado, contudo, não elimina a necessidade de análise. Ao contrário, exige maior qualidade na gestão dos créditos, transparência das informações, governança e disciplina na estruturação das operações”, finaliza Lemos Leite.

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